domingo, 12 de outubro de 2008


A associação de consumidores Deco alertou hoje para os riscos de choque eléctrico, esmagamento ou queda em elevadores depois de detectar falhas em 21 dos 48 ascensores que inspeccionou em Lisboa e Porto.
Dos 34 elevadores inspeccionados em Lisboa e arredores e dos 14 no grande Porto, 21 apresentavam «problemas críticos», mas continuavam a funcionar, revelam dados da inspecção, realizada em Julho e Agosto, e cujos resultados serão publicados na edição de Novembro da revista Deco Proteste.
Para a inspecção, os especialistas da associação agruparam os defeitos em três grupos: críticos, maiores e menores, sendo que, segundo a Deco, basta um defeito crítico para selar um elevador.
«Contudo, 21 elevadores apresentavam problemas críticos e estavam em funcionamento. Alguns acumulavam mais do que uma falha», refere a Deco.
ELEVADOR EMPANADO
para todos os assuntos relacionados com este blogue é favor tratar com
(a partir de agora, única passageira desta nave)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

VIGÉSIMO QUARTO ANDAR: INTRUSO


Naquele prédio perto da esquina, aquele pintado de azul que tem uma drogaria antiga com montra para a rua e letreiro luminoso, onde no 1º esquerdo vive uma porteira cega com mais de uma dezena da gatos... naquele que tem uma porta muito alta, ali mesmo... há um elevador.
Nada tem de extraordinário o facto do prédio ter um elevador.
Nada teria de extraordinário esta minha história não fosse aquele dia em que nele entrei.

Um dia de chuva. Dessa que “chove mas não molha”.
Um prédio não muito diferente dos outros, numa rua não longe de casa, onde provavelmente já passei, sem nunca ter reparado naquela montra com ferragens, tintas, lâmpadas, ratoeiras e plásticos, sem nunca me ter detido no olhar branco e vazio da D. Delfina (agora sei o seu nome) atrás do estore entreaberto da sua janela, sem sequer ter atentado, uma vez que fosse, na grande porta de cor cinzenta com o número onze.
(Em dias assim eu escolhia ruas perto de casa, que isto de vender enciclopédias é uma tarefa árdua, para mais quando chove.)
Ao fim da manhã e sem nenhum compêndio vendido ou apalavrado, dobrei aquela esquina e entrei no número onze. Subi o primeiro lanço de escadas e ouvi miar atrás de uma das portas do primeiro piso; premi o botão verde para chamar o elevador, que desceu prontamente.
Entrei no elevador e carreguei para o 6º andar (começava sempre pelos andares mais altos e ia descendo depois pelas escadas, conversando com os moradores que faziam o obséquio de me abrir a porta). O “6” iluminou-se e o elevador começou a subir.
Nesse preciso instante ouvi uma voz (que me parecia a minha):
Naquele prédio perto da esquina há um elevador.
Nada tem de extraordinário o facto do prédio ter um elevador.
Nada teria de extraordinário, não fosse aquele dia em que nele entrei.
O “6” apagou-se, e de novo a mesma voz (era realmente a minha):
No prédio perto da esquina há um elevador.
O elevador não é apenas um elevador, é uma forma de escapar ao tempo.
No elevador há um corpo, no lugar onde eu estava.
O corpo não é apenas um corpo. O corpo é um elevador que cai.
A queda é uma viagem do corpo, imóvel, ao fundo da cidade que não se vê. A queda é uma deslocação interminável para cima. A queda é um movimento parado e profundo. A queda é uma fuga vertical.

Corri a velha porta de grades e saí para o patamar (com uma estranha sensação de... leveza).



Naquele prédio, ali mesmo, há um elevador.
[Nada teria de extraordinário este facto, não fosse esse elevador o local em que, naquele dia, morri.]


Assina: João Concha, de "Intruso"

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

VIGÉSIMO TERCEIRO ANDAR: Gasolina 2

Os estranhos

Fez-lhe um gesto com o braço dando-lhe a primazia de passagem. Carregaram à vez nos botões marcando o piso onde sairíam. Ela ficou próximo da porta, ele encostado ao aço que revestía as paredes do elevador. Ela subía com o olhar os andares a passarem devagar. Ele subía com o olhar os saltos finos e a linha preta das meias que desaparecía sob a saia travada.

Um solavanco. O elevador estacou. Depois desceu um pouco com um salto. Rangeu. Imóvel.

Ela carregou várias vezes no botão do andar onde quería saír. Ele aproximou-se. Repetiu o gesto dela para o número que marcava a saída dele. Ela carregou na saída. Depois rápido e quase furiosa calcou todos os números. Ele carregou no botão vermelho e o alarme gritou. Ela olhou para o homem, ele olhou-a confiante da sua acção. Silêncio. Ela encostou o dedo no alarme e carregou com força prolongando o som fino de campaínha.

O elevador deu mais um soluço. Eles recuaram e encostaram-se aos cantos. Depois parou. Eles olharam-se. Aproximaram-se da porta e em uníssono gritaram socorro, bateram com as palmas com força no aço ressoando um som metálico frio. Silêncio.

Ele acocorou-se num canto, é esperar, disse. Ela olhou-o e sussurrou, ninguém sabe que estamos aqui fechados. Alguém há-de vir, acalmou-a, mas quando, perguntou ela, não deve demorar, não se enerve, não gosto de espaços fechados, claustrofobia, não, não, mas não gosto.

Alarme. Silêncio. Alarme, alarme, alarme, a campainha perdeu a força e pareceu soar como um besouro cansado.

E agora? Esperemos, melhor sentar-se, não quero. Silêncio.

Ela escorregou pela parede lisa de aço, deitou as pernas de lado, os saltos a afiarem-se no tapete que cobría o fundo do elevador. Pousou uma mão sobre as pernas vestidas de negro. Costuma vir aqui, não, é a 1ª vez, eu também, vinha por causa de uma entrevista, ah, pois. Está abafado, sim, é normal, espero que apareça alguém antes de ficarmos sem ar, ora isso não há-de acontecer, acha, acho, já não sei, estamos aqui há muito tempo, nem tanto, apenas 10m, só? Parece uma eternidade, pois, acontece quando nos tiram a liberdade, quando nos prendem contra vontade, como sabe, já esteve preso, não, é uma forma de dizer, que comparação, mas é a realidade, você está presa, se não estivesse tinha ido à sua vida, mas não é o mesmo, acaba por ser, você é sempre assim, assim como, teimoso, só com mulheres claustrofóbicas, não seja estupido, está a perder a pose, você conhece-me de algum lado para me dizer isso, tirei-lhe a pinta assim que entrámos no elevador, o quê, topei-a logo com essas meias com esse risco atrás muito direito, deve ter a mania que é boa, você é um tarado, se calhar sou e até sou capaz de a comer, aos pedacinhos, bocadinho a bocadinho...

Ela levantou-se e gritou desesperadamente, deu murros na porta, carregou todos os botões.

Não seja patética, se a quisesse atacar já o tería feito, foi você que parou o elevador não foi, fez de propósito, sim, sim, o que quiser. Sente-se, poupe-se, poupe-nos o ar.

Ela enrolou-se ao canto, tapou o rosto com ambas mãos e chorou aos soluços. Vá lá, não fique assim, daqui a nada tiram-nos daqui, deixe-me. Escondeu a face entre os joelhos e fungou. Ele aproximou-se dela e pôs-lhe a mão sobre o ombro, depois sobre os cabelos, ela sossegou, levantou a cara, a maquilhagem deslizava em fios negros até pingar pelo queixo. Ele puxou do seu lenço e enxugou-lhe as lágrimas, depois molhou uma ponta na sua saliva e limpou-lhe os borrões à volta dos olhos. Ela saltou-lhe para o pescoço e abraçou-o irrompendo de novo no choro. Ele apertou-a. Depois embalou-a ao de leve, ciciou-lhe palavras de conforto, estou aqui, estou aqui.

A luz desapareceu por completo, depois alumiou-se muito viva, o elevador disparou na sua corrida piso acima, eles apartaram-se, ela mais chegada à saída, ele encostado nas paredes de aço.

As portas descerraram-se lentamente e ele ficou a ver afastarem-se um par de pernas com uma linha negra que desaparecía sob uma saia travada.

Gasolina
Árvore das palavras

domingo, 21 de setembro de 2008

VIGÉSIMO SEGUNDO ANDAR: XruiM


Dingdong... BomdiaSenhorEngenheiro.
DonaMárciacomoestá. Paraoátrionãoéverdade?...

E desce, desce, como desce bem o senhor engenheiro. Desce tão bem que parece que sobe, ali para cima donde pouco se deve ver. Será que vê a Márcia por debaixo do seu penteado de dona? E naqueles olhos? Verá a limpidez de uma tristeza funda? Não pode. São presos ao chão aqueles olhos. Pálpebras de chumbo. Só debaixo se pode ver a centelha de quem esquece que entristeceu. Todos os dias vai esquecendo, um pouco. Ali ao lado do senhor engenheiro. De lado...

Dingdong... DonaMárcia.
TenhaumbomdiaSenhorEngenheiro...

BomdiaSenhor... Sétimoandar?comcerteza...
Siménosétimo.
Àesquerdaaofundodocorredorencontraráarecepção...
Aoseudispor...

E sobe, sobe, ao seu dispor sobe. Gente nova esta que diz bom dia a sorrir. É fácil acreditar que vamos ter um bom dia quando nos é desejado assim com um sorriso claro. É um timbre de voz que nos faz cruzar o olhar e perceber que há presenças serenamente ingénuas. É o optimismo de quem pouco sabe e tudo espera, sem saber que tudo é mesmo tudo, incluindo o que não se espera, sem saber que a espera de mais nada esperar é uma imensa folha branca que nunca ficará preenchida. Que aprenda ele a usar o lado certo da caneta...

Dingdong... TenhaumbomdiaSenhor...
Simàesquerdaeaofundo.

Bom dia Alzira. Já acabaste por hoje?... Não Alzira, ainda não chegou... Não sei Alzira... Sim, mas... Que ideia mais disparatada Alzira!... Sim Alzira acho que não deves...
Dingdong... Até amanhã Alzira. Tem um bom dia.

BomdiameninaVera... Nãovaiparonono?!...
Paraosolário?comcertezameninaVera...
Nãoaindanãoconheçooseuamigo... MeninoTonelo...

Sobe, sobe. Sobe rápido que a pressa é muita. Já não lembrava de quanta pressa se pode ter. Aqui atrás o mundo está prestes a acabar e eles nem sabem que acabará mesmo, só que muito mais devagar. Será inveja?... Saudade. Sim, saudade daquela luz imensa que de dentro ilumina o mundo e ele, assim iluminado, nos parece tão mais perto, tão leve e pequeno...

Hrummhrumm...

Sobe, sobe. Sobe lá. E que lento podes ser quando levas gente a mais. Sinto-me sempre a mais na presença de quem tem o mundo na mão. Fazê-lo rodar e olha-lo dos pontos de vista mais improváveis. Soprar a espuma nas ondas do mar, sentir leve o ondular antes da baixa-mar. Antes de o mundo secar, maior e pesado. Antes que longe fique o mar...

Dingdong... TenhaumbomdiameninaVera... MeninoTonelo...

A chamar da cave 10!?... A cave 10, há quanto tempo lá não vou!... Duas... três vezes, nestes anos todos... não sei bem. Não...

Dingdong... BomdiaSenhorAlberto. Esperequeeuajudo.
Estacionamentonãoé?cave1.

Desce, desce. Não vai descer muito mais o senhor Alberto. Há sempre vidas corridas a descer, muito rápidas e sempre a descer. Terá algum dia olhado para cima? Custa a crer que se faça tão grande caminho sem nunca olhar para cima. Talvez não saiba que existe cima. Talvez não se aperceba que no olho do vórtice arrastam-se os companheiros de viagem... Dor maior aquela de o perceber...

Dingdong... Deixemeajudaloatéaocarro. Não?..
ComcertezaSenhorAlberto. Folgomuitoemverlorecuperado.
TenhaumbomdiaSenhorAlberto.

Vamos lá, cave 10. Não me lembro mesmo... Terão sido só duas vezes que lá fui?... Amarelo pardo nas paredes, luz parda, pouca e incandescente... A maquinaria de bombagem ao fundo à direita... À esquerda faltavam lâmpadas e era escuro... e isso foi daquela vez.
Só lá terei ido daquela vez?!...

Dingdong... Olámenino. Quefazomeninoaquiembaixo?...
Agência espacial!? Não menino, esta é a cave 10 e a última do edifício, não é nenhuma agência espacial!... Como se chama o menino?... Muito bem, Tomás, o menino está sozinho?... Sim, vamos para cima, mas para o átrio onde iremos telefonar aos seus pais... Ao seu avô?... Muito bem, telefonaremos ao seu avô. Agora vamos para dentro.
Sim, pode carregar nos botões... Primeiro neste... Escotilhas?... Enfim, poderemos dizer fechámos as escotilhas. Agora este com o zero... Muito bem...
Não, esse não é o botão de ignição, esse acciona o alarme... 9
Mais ou menos... É para nos ouvirem quando alguma coisa corre mal... 8
Exacto, esse vermelho é para parar... 7
A missão?! Está bem, esse abortará a missão se algo correr mal... 6
Não menino, não vamos abortar a missão... 5
Sim menino, tenho a certeza... 4
Medo?!.. 3
Sim tenho um pouco... 2
Sim, posso chamar-lhe Tom... 1
Sim senhor, Major Tom... 0
Naquele dia abriram-se as portas do elevador, vazio e onde se ouviam já longínquos os últimos acordes de 'Space Oddity'.

XruiM em X peliO
21 de Setembro 2008

domingo, 7 de setembro de 2008

VIGÉSIMO PRIMEIRO ANDAR: LIDIA MARTINEZ


No elevador como um grilo

Entrei no elevador e ali fiquei como um grilo
à espera que me fechassem a gaiola.
Alguém chamou a caixa e fui como uma pena,
embalada pelo baloiço, até ao terceiro andar
Fechei os olhos, a porta abriu-se, fechou-se,
mas ninguém entrou.
Senti que o elevador partia novamente
e aguardei em silêncio o acordar deste dia incerto.
Conhecia-lhe todos os soluços, incertezas e safanões.
Tanto fazia subir ou descer, era sempre o mesmo barulho,
o cheiro azedo, indefinido.
Perfurava o chão ou o céu, indistintamente
e eu aveludava a língua sonhando que era Alice
descendo à toca do coelho branco,
e que em vez de chegar atrazada ao emprego,
ia decrescer até passar pelo buraco de agulha,
afim de pesquisar no ouvido do meu amor impreciso,
abaunilhado, ajornado e mudo.
Suspirava dentro dele e subia até ao cerebro marcando
as letras e o nome que me tinham dado.
Fazia do seu corpo um caminho estreito, o sangue propulsava-me,
ia e vinha como este elevador desatinado.
-«Vai para o sétimo andar?»
Acordei em sobressalto e respondi-lhe que sim, claro,
o céu estaria por perto, não?
O rapaz riu-se e arranjou o colarinho.
Vi a migalha fina que lhe picava o beiço... tem uma...
E ele, desculpe, comi depressa... eu sei, também acordei tarde...
Ao sair empurrei-lhe o braço, sem querer.

Lidia, Paris.
7 de Setembro 2008

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

VIGÉSIMO ANDAR: SOFIA VIEIRA

Manhã cedo, a porta abre-se. Entro de cabeça baixa, como sempre, com medo de que o estremunho me distraia e o chão me falte. Encaixo-me entre corpos a cheirar a fresco e é então que te vejo. Primeiro andar. Estás mais bonito do que nunca: umas rugas subtis, finas como nervuras de folhas, enfeitam-te os olhos risonhos, que obviamente se divertem ao repararem em mim. Segundo, terceiro. Percorrem-me as curvas recentes e as saliências antigas; trepam-me, como se dois miúdos à solta num campo em busca de flores e de insectos ou apenas de coisas que os distraiam, enquanto eu estática, parada, avariada. Ofendida. Quarto andar. Com um agrado tão displicente que mais parece fortuito, dás-me um abraço fraterno e mostras-te contente, como quem há muito não visse um amigo querido de quem já pouco se lembrasse. Quinto. Só que eu não te quero contente, nem que estejas sinceramente agradado por me veres, ora essa. Sim, sei que estou óptima, não preciso que mo digas. Sexto. Quem pensas que és para me olhares assim bem disposto e te congratulares com a minha presença? Quem?, para eu te ser tão indiferente ao ponto de te mostrares genuinamente simpático comigo, atirando-me com o sorriso encantador que dispensas habitualmente aos passantes, aos meros conhecidos, aos amigos distantes? Sétimo andar. Quero-te compungido, ao menos incomodado; quero que me olhes com a expressão aflita que fazem os que dão de caras com a sua maior perda mas tentam disfarçar. Podes até cobiçar-me um bocadinho ou reconheceres o meu perfume dos tempos em que mo lambias do pescoço. Oitavo. Apresentares-te um tudo nada perturbado, ou apenas nostálgico, pronto. Engole um suspiro, reprime um soluço. Nono, décimo andar. Mas não fiques contente por me veres, isso não, santa paciência. E muito menos te mostres indiferente ao nos despedirmos, sem qualquer resquício de desespero. Décimo primeiro, é aqui que eu saio. Atreve-te a não vires atrás de mim e a ficares aí, a acenares-me com ligeireza, beijinhos até um dia. Mostra ao menos uma certa pena, faz um gesto para me alcançares, um arremedo de lamento. Gagueja, mete os pés pelas mãos, transpira demais, embacia o riso dos teus olhos com a névoa de uma certa tristeza. Não? E um amuo ou um beicinho antes de a porta se fechar?

Assina: Sofia Vieira, do blogue "Um Amor Atrevido"

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

DÉCIMO NONO ANDAR: GRACINDA CANDEIAS


RECORDAÇÕES DE ELEVADORES

Ia até ao 8º piso, era daqueles elevadores antigos, de porta de grelha, (encolhia e esticava). Cuidado com os dedos! Advertiam-me!

Entrava-se e tinha um chão de soalho, imediatamente, veio-me à memória a Minnie, uma rapariga endiabrada que conhecia as manhas do elevador e que só arrancava, com «step by step», dum sapateado bem ritmado.
Infelizmente no dia em que eu entrei num outro elevador, não havia Minnie nem o Bruce Willis, do filme «O Assalto ao Arranha-Céus», ele saía numa das situações de maior perigo, saía pelo tecto do elevador, trepava pelo cabo e salvava assim a mocinha…

Mais tarde, no tempo em que vivia em Paris, conheci a Merícia de Lemos, uma mulher fantasista e que me convidou para jantar, em casa (supunha eu), subimos num elevador «prive», forrado de veludo «capitoneé», ao fim de um dry Martini, perguntou-me: tá pronta? Então passemos à sala de jantar, descemos, ela abriu a porta e para minha grande surpresa saímos pela «Avenue Montaigne» e entramos num restaurante e virando-se para mim diz: esta é a minha casa de jantar, gosta?

Comia-se maravilhosamente, por isso, via-se na mesa ao lado o Romain Polansky o Yves Saint Lourent, com a sua musa Loulou de la Falaise, Pierre Bergé, entre outros.

Em casa a sua cozinha tinha sido transformada em «closet» onde guardava maravilhas de alta-costura.

Uma vez no Recife, apaixonei-me pela visão de um elevador, transparente, (sempre gostei de elevadores transparentes!), tinha várias fiadas de luzes azuis nas verticais, fazia-me lembrar o filme «Blue Velvet».
Tanto me fascinou que acabei por ir lá parar!

Voltei lá várias vezes e a suite 710, estava sempre reservada para mim.
A suite era como um navio. Quase toda transparente e parecia que entrava pelo Oceano Atlântico, ouvia e sentia as ondas do mar a bater, ao som de Nino Rotta.

Ficou também a recordação de um moreno de olhar pesado, gingando no seu fato branco, tanto me olhou que me fulminou!

Quantas recordações no ELEVADOR!

Outra foi em Inglaterra, numa das viagens que fazia a Londres, encontrei na feira de «Portobello Road», um descendente da família de Eça de Queirós, fez-se passar por vendedor, para eu olhar para ele, assim foi! Perguntei-lhe em inglês o preço de uma peça que estava interessada e ele respondeu-me em português.
Ah! falas português e és vendedor aqui? Sorriu com olhar malandro e diz-me: «subornei o vendedor para olhares para mim!», rimo-nos imenso e decidiu mostrar-me os sítios da «sua» Londres, demos várias voltas, até irmos parar ao seu «flat». O pequeno elevador, encravou-se e tudo começou mesmo ali no chão do elevador… Um romance curto mas muito intenso!

Outra história, foi na longínqua Índia em 1976, fiquei num hotel de cinco estrelas que valia por dez! Isto passava-se em «Bombay». O hotel era de uma sumptuosidade e parecia uma pequena cidade, fervilhava de gente a sair e a entrar de diversas nacionalidades, tinha restaurantes dos quatro cantos do Mundo, «boutiques», massagens, na altura não havia «Spas»…«boites» de todo o estilo de musica, danças do ventre, etc., só que eu não encontrava a tal «boite» para jovens com música da época e dirigi-me à recepção, para perguntar, mas reparei num jovem muito bem educado que me pareceu de confiança e dirigi-me a ele, perguntando pela tal «boite», ao que me respondeu: «Há, há! Mas antes, tenho que encontrar-me com um amigo meu e depois levo-a à «boite», não se importa?» Como me pareceu inofensivo, lá fui, mal sabia o que me reservava!

Subimos no elevador até ao 17º piso. Eis que me apercebo que entramos logo para uma enorme suite (era todo o andar) e um odor que pairava no ar a jasmim. O amigo era nada mais nada menos que um Sheik da Arábia Saudita!
Ao que parece tinha negócios a tratar ou contactos, não sei bem, porque fiquei tão atordoada com o odor intenso a jasmim e as visões do «décor» que parecia um filme das mil e uma noites (até odaliscas se balouçavam em baloiços!). Quando conheci o Sheik, foi o «cou de foudre». Só saí de lá cinco dias depois!
Dado esta história ser tão mirabolante, assaltaram-me recordações de outras histórias de várias raparigas, jovens como eu, que, na altura, desapareciam misteriosamente. Assim, na quinta noite, esperei que os seguranças dormissem, e foi o ELEVADOR que me salvou de não ir parar a um harém!

Texto e pintura de Gracinda Candeias
Sobral de Monte Agraço, 26 de Agosto de 2008

domingo, 24 de agosto de 2008

DÉCIMO OITAVO ANDAR: GASOLINA


Divagações sobre um elevador

É tarde. Tarde do dia, daqui a nada há-de cantar a madrugada e hei-de imaginar um galo a esganiçar o pescoço. Ou aquele pássaro sempre em pânico dos Flinstones a quem depenam as horas... não sei porque carga d'água me fui lembrar disto agora... é tarde. Doem-me os pés mas valeu a pena, os saltos altos sempre farão a diferença e o resto é conversa.

(Mas onde está a porcaria do elevador???)
Quase de certeza que a coscuvilheira da frente há-de vir ao patamar... a conversa de chacha do costume, "pensava que tinham batido à porta..." Que nojo! Quando tiver dinheiro mudo-me de vez! E sem estas porcarias de elevadores que não chegam...
(Será que avariou?! Será que carreguei no botão? Não se sabe, não é?! A lampada fundiu-se e ninguém está para trocá-la!!!)
Assim que entrar no elevador descalço-me. A esta hora não vai aparecer ninguém. Caramba... parece que vou assaltar o prédio onde moro! Descalço-me logo, os pés na alcatifa... se bem que o béu-béu da velha do 3º é bem capaz de lhe ter espetado uma mija... porque é que cheira sempre a mijo neste elevador?
(Ah! Finalmente! Lá vem ele...)

Um dia destes cai, é certinho. Range que até dói. Chia. Grita. Deve ter falta de óleo... Como é que será que se põe óleo nesta caranguejola? Deve ter que se entrar lá para dentro, para o oco, isto deve ser um buraco escuro, não se deve conseguir ver para pôr o óleo, cheio de cabos e coisas que ninguém percebe, deve dar medo, o avesso do elevador... deve ter, tudo o que se vê por fora tem um avesso, este também tem que ter. E deve estar mal pelos berros que dá, aquelas cordas e roldanas e parafusos a moerem-no todo por dentro e nós aqui sempre a pedir mais, puxa para cima, vai para baixo, aguenta, só mais um peso, é só um piano... Será que os elevadores têm venetas? Quer dizer... temperamentos, se calhar até coração, "o coração do elevador está doente, Meus Senhores", eheheh, "talvez um transplante!"... As parvoíces que uma pessoa não diz quando está cansada...
(Ei-lo. Ah! Entrar e descalçar-me! E agora vamos para casa, tenho sono, é tarde)

Botão.

Magia.

Upa.

(Só me faltava esta... não se mexe. Vá lá! Vá lá! Se desceste, também sobes!)

Nada. Está morto. De cansaço. Como eu. Descalça-te elevador, é tarde.
Vou pelas escadas, a cusca nem há-de saber...
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assina (texto e desenho a carvão): Gasolina
Blogue: "ÁRVORE das PALAVRAS" http://palavrasnaarvore.blogspot.com/


sexta-feira, 15 de agosto de 2008

PARAGEM OBRIGATÓRIA

Parece não ter ficado muito claro, mas o tema obrigatório deste blogue é o ELEVADOR.
Como se diz na apresentação, aqui ao lado: "Este blogue antológico sobre o tema “Elevador” foi sugerido por um conto de Ana Paula, (...)". Só serão publicados, portanto, textos que respeitem esse tema.
Três será, igualmente, o número máximo de textos a publicar assinados por cada autor, por forma a não desiquilibrar demasiado a contribuição de todos.
Este "Elevador" continua em andamento, depois desta paragem obigatória.
Obrigado e bons trabalhos, que tenham a ver com elevadores.

DÉCIMO SÉTIMO ANDAR: MATESO, OPUS 3

Um jantar
Mam’selle “poulette à la crème rouge” retorcia-se na travessa aquecida. Rodeavam-na pequenas batatinhas salpicadas e espargos gratinados. A cor dourada, o vermelho, mais o verde, davam-lhe aquele ar apetitoso que faz a saliva brotar sob a língua. As batatinhas estremeciam aos pontapés dos cotos bem tostadinhos. Os espargos, moles por natureza, nem despegavam do seu sítio. Sabiam-se inexcedíveis ao toque e gostosos no degustar. Para quê incomodarem-se? Que a comum da poulette fizesse algazarra, estava-lhe na capoeira do sangue. E no pequeno elevador, da cozinha para a copa, que antecedia a enorme sala de jantar, lá subiram eles aos solavancos, porque o dito cujo, estava assim, a modos que, enferrujado dada a falta de uso. Não é todos os dias que se servem jantares para tantos convivas.” La poulette” de peito bem recheado a lembrar o colo alto e anafado de uma prima-dona, motivada pela sua magistral beleza gastronómica, passa invejável por entre os dedos que lhe suportam o leito, melhor a travessa onde repousava lânguida e tostada. O sacolejar fazia-a sentir-se ligeiramente suada, porém, assim que respirou um pouco do ar de múltiplos odores, sentiu-se logo fresca e apetitosa. Depois é “très chic” subir de elevador até ao primeiro andar, embora estivesse um pouco demodé, mas também quem é que sabia? As outras primas poulettes que se perfilavam na mesa ordenadas de acordo com o estrato social, sentiam, também, aquele frenesim que precede a expectativa, pois que, tal como ela, iriam subir pelo velho elevador para logo serem levadas pelos criados de libré. Um desfile digno de registo. Recorda, a cozinha bem atarefada de mesa comprida, panelas luzidias, fogão crepitante e facas, muitas, compridas, largas e afiadas. Depois Tia Rosinha gorda, gordinha de grande avental branco e chapéu pregueado, redondo e alvo. O olhar de manteiga, braços de derriço, as mãos de artista que de uma simples poulette da capoeira fazia a melhor iguaria digna de honrar a mesa dos “Messieurs de Souzelas.” Mas, mais ainda do que a cozinha, ela “la poulette à la crème rouge” recordava-se sobretudo do misto de sentimentos que a alagara, ao saber, que iria viajar no velho elevador da cozinha até à copa. Havia anos que o pobre fora esquecido, pois que a cozinha passara a ser quase museu de tachos e panelões lustrosos de cobre pendurados. Um espaço novo e moderno fora instalado no andar de cima, passando a velha cozinha para as calendas gregas. Porém, naquela mesmíssima noite, a tradição tomara o seu lugar há já muito perdido, e começando pela antiga cozinha e respectivo elevador, tudo se pusera a funcionar com uma quase perfeição de locomotiva bem oleada. Porque isto é assim, casa que se preze tem elevador da cozinha para a copa e vice-versa. Os criados, criaturas de Deus, há muito que se tinham desabituado, de acordo com a evolução da espécie, das subidas e descidas até ao primeiro andar. Fora pois, lá pelos idos de 1889 que D. Antão de Souzelas mandara instalar o elevador, não para evitar o esmoer físico dos seus retesados serviçais, mas antes, pelo simples facto, de detestar comida fria, e não havendo outro modo de a conservar bem quente, senão por este processo, dada a lonjura da cozinha para a sala de jantar, aquiescera na compra e instalação de tão moderno artefacto. Não fora a excessiva elaboração de um brasão esmaltado que roubava toda a atenção, senão alento, aos que chegavam de novo, relegando para segundo plano, o “dernier cri” do casarão. Não fora por este excesso, a preciosidade mecânica teria tido toda a admiração própria dos pacóvios de província, por sinal dignos frequentadores dos salões da casa. Bem instalado no vão das escadarias que circulavam entre a cozinha e o nobre primeiro andar, o elevador desaguava numa copa bem guarnecida de serviços de vidros, baixelas e demais parafernália, ligando por meio de um arco abobadado, vestido de pesados reposteiros de veludo mel, ao digníssimo salão de degustação, alegoricamente decorado de tapeçarias e pinturas de mestres. Mas, retomando o nosso elevador, nosso como quem diz, de “Mam’selle la poulette à la crème rouge,” que por aquelas alturas já ocupara o lugar central numa simetria perfeita, na grande mesa coberta de alvo linho. Varria-a uma excitação, era uma viagem única, quase uma aventura da cozinha para a copa. Entre o sacolejar, vai que não vai de uma subida, um arredondar de ruídos, um afogar de guinchos, um retesar de cabos e finalmente uma paragem brusca, eis que chegou ao destino. Abriu-se a portinhola de madeira e mãos enluvadas retiraram a bela da travessa totalmente decorada ao claro gosto da sábia Tia Rosinha A arte nascia-lhe sob os dedos assim que pressentia repastos fidalgos, e hoje as cores tinham-se vestido de verde e vermelho numa orgia de odores apetecíveis. Mam’selle sentia-se inchada, não se percebia se era da forma, se antes da importância, que lhe servia de mote. Assim ufana, revestida de uma vaidade dourada como o tostado da sua pele, a galinha passa em revista todas as outras frangas que se dispunham pela mesa. A mania das importâncias que lhe pulsava sob a pele estaladiça tornava-a semelhante a uma daquelas tias de nariz empertigado, voz rouca e cérebro quase vazio, mas de aparência fabulosa, assim era Mam’selle la poulette. À excitação da subida juntava-se-lhe o orgulho tolo da importância. Sentia-se tão magnífica que se esquecera que em breve seria trinchada, fatiada, mastigada e engolida. Depois cairia no esquecimento. Mas que importava isso. Feliz, Mam’selle suspirava regozijada. Depois dos preliminares comuns ao cerimonial de uma refeição de libré, a sua vez chegou. Não tugiu nem mugiu, apenas se sentiu esvaziada de carnes, delapidada de articulações, enfim comida. Saciados os humores estomacais dos ilustríssimos convivas, de novo as librés inclinaram-se recolhendo as vitualhas, que em forma de ossos pululavam as travessas. Despidas de encanto, com um ar bastante descomposto, aqueles mais os restos de todas as poulettes, desceram da copa para a cozinha no velho elevador que cansado resfolegava na descida. O dia fora-lhe pesado, e nem o óleo nas juntas lhe mitigavam o esfalfamento daquele dia. As mazelas da idade se bem que disfarçadas, chegada a hora da verdade rangiam por tudo quanto era sitio, no caso, em tudo que era porca, roldana ou cabo. Os criados exaustos retiravam as travessas descuidadamente do cubículo, e despejavam os restos num grande panelão. Entre os sobejos da travessa maior, uma pele tisnada sobressaía, colada ao fundo, como se a pobre tivesse deixado incólume o invólucro para futuras receitas de tisnado. Um guia culinário digno de uma escrita à la mode como é de praxe nestas andanças.
E assim findou um jantar de poulettes e um velho elevador que embora caquéctico ainda cumpriu as suas funções. Na vida fugaz de todos nós, um pouco de óleo e de pele tisnada, por vezes, são capas coloridas de belas recordações!....

assina: Maria Teresa de mateso

terça-feira, 12 de agosto de 2008

DÉCIMO SEXTO ANDAR: ANA EUFRÁZIO


POR UM FIO

Estava com a cabeça erguida olhando as luzes insistentemente acenderem 5, 4, 3... Até que, diante de mim, a porta se abriu . Saíram umas três pessoas. Por fim entrei.

Quando estava quase terminando fechar, uma senhora adentrou, parecia muito atrasada, conseguiu por pouco. Junto com ela um perfume fortíssimo invadiu com o lugar. Somente quando estava ao meu lado, notei o decote, daqueles em “V”, de vai que é tua... E os seios... Pareciam desafiar a lei da gravidade. Procurei sentir um cheiro de fêmea não consegui, o perfume era tão forte que ardiam as narinas. Bobagem! Quem presta atenção em perfume forte, com dois sonhos de padaria, um ao lado do outro, unidos por um sutiã, ínfimo, um, ou dois números menor. A peça deveria estar pequena, unia os seios e expelia a aureola para fora, dava pra ver por entre a transparência da blusa uma florzinha surgindo timidamente de dentro da meias-taças, que eu as beberia inteiras. Tinha-se a sensação de que as duas gérberas sufocavam, de tão juntas que estavam. Observando de cima notava-se uma linha quase que imaginária os separando.
Só então que percebi que não estávamos sozinhos. Uma senhora, com um jeito de casta. Sabe aquelas mulheres com jeito de quem nunca se masturbou? Pois é... Uma criatura dessas nos fazia companhia. Olhe-ia por instante e pensei... E se eu enfiasse a minha língua no seu ouvido, ou se delicadamente, por baixo da saia, acariciasse a sua vulva? Poderia quem sabe apenas dizer meia dúzia de palavras pornográficas. Será que conseguiria despertar a fera escondida na pele de cordeiro? Acho que ela teria um orgasmo ali mesmo, na frente de todos nós, e sairia dissimulando uma asma, um desmaio, sei lá, um susto talvez. Acho que a celibatária penetrou o meu âmago, vasculhou todo o meu íntimo e acabou por perceber toda a sacanagem que permeava meus pensamentos. Olhou-me de um jeito! Abraçou fortemente a bolsa, procurava proteção.
A porta abriu e entrou um sujeito, um tipo garotão... O narcisista, não percebeu os seios fartos saltando do decote, a mulher casta e nem um nanico com cara de tarado que estava ao meu lado. O pintor de rodapé entrou bípede e saiu equilibrando-se, desajeitadamente, num tripé. Enquanto eu encarava discretamente, ele babava cinicamente observavando o monte pascoal. Enfim o garotão, reservatório de testosterona, e o anão nos deixaram as sós. Ou quase a sós, restava ainda a puritana. Imediatamente pensei... Se ficássemos as sós, eu e a gostosona, rasgaria o seu sutiã, morderia seus mamilos, morderia seu pescoço, a faria ter uns três orgasmos, no mínimo. Sairíamos daqui direto para um motel.
Quinto. Entra uma ninfa. Pela madrugada! Uma coisa! Dois peitinhos! Pareciam dois limões verdinhos recém brotados. Aquele cheiro pueril, de meninas de treze, catorze, quinze anos. Sexto. Tinha ainda quadris estreitos, quase infantis, mas uma bundinha desafiadora... Mordiscaria de leve todo aquele gluteosinho. Lá vai ela embora, que pena! Opa! Peraí, vai levando com ela a balzaquiana mal comida. Enfim sós.
O que digo? Calor? Calor, ficou louco? Aqui dentro o clima está extremamente agradável. O tempo está bom, não é mesmo? Idiota, lá fora tá caindo o maior toró. Já sei, vou convidá-la para uma apresentação teatral. Com uns seios desses! Ela não freqüenta teatro. Não. Vou convidá-la pra praia e pra o pagode no domingo. E tu vais deixar esse avião dar mole na praia? Melhor não. Vou dar xeque-mate agora mesmo.
Oitavo. Ela se apronta para sair.
É agora.
─ Vem sempre aqui?
Ela me olha espantada. Eu dou de ombros. Só mesmo um idiota cretino como eu tenta puxar conversa perguntando a uma mulher se ela costuma freqüentar elevadores.
assinado: Ana Eufrázio
anaeufrazio.blogspot.com

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

DÉCIMO QUINTO ANDAR: Daniel Sousa

Crime no escuro
Não existem crimes perfeitos. Disse-o mais do que uma vez o senhor Amaral, detective privado, vivia num andar húmido e velho da grande cidade. Quando rapaz adorava andar no elevador, numa outra casa, já desaparecida. Na sua patética imaginação de criança julgava inocentemente que o elevador era um portal para outro mundo. Quando conheceu a realidade, chorou por não ter mais no que acreditar. Quando veio a ter esperanças, chorou por não as ter mais. Os sonhos que tinha vivido, as crenças em que tinha acreditado, tudo desabou. Desacreditou no elevador logo no primeiro dia, entre tantos, em que ficou encurralado no escuro, seria normal o elevador estagnar. Mas não neste dia. O susto serviu para emendar velhas brincadeiras. Em outros tempos representava para ele, a aventura, um novo mundo por conhecer, mas quando esse mundo se tornou trevas, ele também passou a teme-lo. Nesta altura da sua infância começou a desejar ser detective, e tornou-se. Apesar da vida paupérrima que levava, conseguia o suficiente para sobreviver.
Todas as manhãs, sempre que entrava no elevador, encontrava-se com dona Maria, a velha simpática e afável do prédio, puxavam conversa atrás de conversa, até que se despediam, a porta do elevador abria e, apenas no dia seguinte, voltavam à mesma rotina.
O elevador tinha uma fraca luz, que desapareceu passado dias. A única iluminação que possuía eram os botões que guiavam os seus passageiros ao destino escolhido. Desta forma os habitantes do prédio impuseram as suas medidas para uma reforma nos condomínios. Quem não ligava a essas discussões era o senhor Amaral, que voltava a recordar o elevador da sua infância, aquele cubículo escuro e frio, a sua memória voltava atrás no tempo, aos anos em que perdera a fé na própria esperança.
Detective há uns doze anos, o senhor Amaral apenas pensava no que poderia suceder: um crime brutal, a vítima nunca conseguiria notar na cara do assassino, o escuro ocultaria a identidade, e o cadáver permaneceria naquele cubículo, até que uma das pessoas que habitavam o prédio o descobrisse. Seguia pensativo, ele, como detective, tinha uma intuição dedutiva que aprendera lendo os clássicos policiais, mas, com o tempo, descobriu que o mundo não é como nas histórias. Que treta! Diz-se que não existem crimes perfeitos, quem afirmou tal relutância nunca entrara num elevador completamente escuro, onde ninguém pode ouvir as nossas súplicas, onde ninguém alcança os nossos medos.
Quem andava sempre a protestar era o dr. Queiroz, vizinho do senhor Amaral, ultimamente andava à procura de um livro para oferecer a um amigo, poeta. Os sonetos de Shakespeare foram sugeridos pelo senhor Amaral, era um bom poeta, inglês, e bastante vendido. O suficiente para que gostasse. Poderia ter sugerido Byron, Shelley, tantos e tantos, mas foi o único que lhe ocorreu, e, depois, ele apenas devorava incansavelmente os policiais, isso sim, era literatura, era doentio pelo crime. Mas ultimamente andava deprimido e com períodos de terrível amnésia. Combatera o medo por elevadores frequentando um psicólogo que o acompanhava, ao entrar num elevador escuro, como era o caso daquele prédio, perdia a noção da vida e da morte, da ficção e da realidade, havia quem sugerisse que o detective era louco, mas todos os génios o são! Repelia sempre o elevador, e planeava um possível homicídio. Durante dias era esse o pensamento do senhor Amaral. Até que a senhora Maria aparece morta, assassinada, dentro do cubículo escuro e frio que é o elevador! Levara uma pancada forte na cabeça que lhe provocou a morte. Um livro, segundo disse a polícia, bastante grande e pesado, três cacetadas fortes e a velha foi-se deste mundo! Agora os moradores sabiam que a luz não se apagara por acaso, era o pronuncio de um homicídio, e entre eles, entre todos aqueles moradores, um deles era o assassino.

Ao perguntar se oferecera o livro ao amigo, o detective recebe a resposta directa do dr. Queiroz: o livro desapareceu, caiu-me da mala, ao chegar a casa já não o tinha! Shakespeare é sempre bom, mas desaparecera. No entanto o prédio pouco podia pensar em livros desaparecidos, um homicídio ocorrera, uma inocente, uma mulher virtuosa e bondosa fora encontrada morta, o único detective do prédio teve de actuar, contra todas as vontades da polícia que não se fiava nesses charlatães, espiões de terceira categoria.
Enquanto isso, o senhor Queiroz continuava desiludido pelo desaparecimento de um livro tão belo como aquele, talvez devesse ter optado pela poesia francesa, meditava constrangido. De repente lembrou-se de algo, o senhor Amaral seguia no mesmo elevador quando o livro desaparecera: tudo acontecera porque ele, pouco antes de sair, deixou cair o telemóvel para o andar inferior, e dera a mala ao detective, na mesma mala onde, supostamente, trazia o livro. Bem, mas o senhor Amaral nunca roubaria! Livrou-se da ideia: para quê que um detective, que apenas ama a literatura policia, e despreza por completo a poesia lírica, iria querer roubar a obra de um dos maiores nomes da literatura mundial? Com estes pensamentos abriu a porta do elevador e dirigiu-se a casa.
No dia seguinte o dr. Queiroz foi preso, o livro que fora usado para o homicídio era: Os sonetos de Shakespeare, uma edição recente, num livro grande e pesado, com uma lombada, grossa o suficiente para provocar a morte a uma velha frágil e despreocupada. Ele dissera que o livro tinha desaparecido pois esquecera-se dele no local do crime, e contra todas as circunstâncias pretendia lançar as culpas ao senhor Amaral, detective, agora respeitável. Existia o recibo da compra daquele livro em nome do dr. Queiroz, existiam testemunhas, existia o senhor Amaral!
Ninguém podia acreditar no que ouvia, mas assim era, ninguém é prefeito, todos temos os nossos demónios.
O senhor Amaral voltava a recordar que nenhum crime é perfeito, ninguém sai impune de um homicídio. Voltou a entrar no elevador, seguindo os aplausos dos que lhe agradeciam, e naquele ambiente escuro e triste cometeu suicídio, nunca ninguém percebeu porquê, a não ser quem vira o senhor Amaral entrar no elevador juntamente com a dona Maria, pouco antes do homicídio ocorrer, porque apenas um dos dois saiu da cabine escura e triste que revelava mundos jamais conhecidos dos humanos. A partir desse dia nunca mais se voltou a falar em crime no prédio, que acabou por ser abandonado e demolido.
Assinado: daniel sousa, do blogue "
Crime no escuro"

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

DÉCIMO QUARTO ANDAR: BANDIDA


há um diálogo entre o medo e a existência pintada nos botões da subida. o teclado tomou-me pela distância e o avanço resignou-se até à asa primária do espaço onde se eleva o pensamento na sua perfeita máscara, volúvel e agradada.
não danço. - danças?

podemos morrer aqui pasmados de fadiga e todavia o canto esconde sombras. emoções civilizadas para que não se percam as penumbras.

não chove aqui. pode ser que a música levante os olhos e devagar, muito devagar, consigamos chegar ao sótão em silêncio. sem dimensões e tempos mágicos na distracção formidável da subida.
há as escadas, queres? - nada se compara à transparência do botão. - quinto?

um movimento de translação entre o pensamento e o sólido tédio que o absurdo revitaliza. meio-metro quadrado de futuro.

falta-me o ar. - danças?

finjo a fragilidade geométrica do amor. uma mesa posta, este elevador.

assina Bandida
foto de Balla Demeter.

DÉCIMO TERCEIRO ANDAR: Minucha Raposo,de Magalhães opus 3


SEGREDOS DE UM ELEVADOR

Retalhos de vida, que eu elevador assisti durante mais de 60 anos.
Poderia contar a vida de quase todos pelo pouco que via, de cada vez que em mim andavam. Podia até ter esquecido muita coisa, não fosse o espelho que dentro mim havia e esse nada esquecia.
Vi a mãe com o filho ao colo, virando-o para o espelho e perguntando – quem é a coisa mais linda da mãe? - e o pequeno ria, querendo tocar naquela imagem que não reconhecia.
Vi, também, o "pai", dando um último jeito à gravata, ou a maneira como olhava a vizinha do sétimo andar, um bom "pedaço" de mulher, que quando entrava sorria simpática e sedutoramente, olhando de seguida o espelho a confirmar a sua beleza.
Os do primeiro andar eram os mais rápidos, mal entravam já estavam de saída e muitas vezes nem me usavam, quando percebiam o tempo que demoraria a chegar, galgando os degraus enceradas, dois a dois.
Os do segundo, pareciam cavalos à desfilada, quando desciam, sempre atrasados, indomáveis, aqueles rapazes, oito ao todo, os pais coitados uns mouros de trabalho, nem tinham tempo para o espelho olhar.
As conversas das empregadas, quando se encontravam, vindas das compras comparando a forretissse ou o desleixo das patroas. Infindáveis as críticas que lhes faziam. No parecer delas, as patroas qualidades não tinham, mas o certo é que as não trocavam por outras.
- Viva Isabel, ao tempo que a não encontrava. Estava para ir a sua casa, pedir-lhe desculpa se por acaso amanhã lhe fizermos muito barulho. Temos um jantar grande....
- Viva Mafalda. Não se preocupe com isso, as salas são longe dos quartos, e não incomodará com certeza. Já viu que a porteira não anda a limpar a entrada?
Alguém me disse que está doente.... passa a vida doente aquela mulher! O que se lhe há-de fazer Mafalda?
- O pior, Isabel, é que tanto a Maria João do sétimo, como a Teresa do quarto, não querem saber de nada.
- Mas a Mafalda não sabe que Teresa só pensa na educação dos filhos e quando andam em correrias põe-nos a rezar o terço...
O Pedro anda sempre sozinho...eu se tivesse um marido tão bonito....não corria tantos perigos
- Ora Isabel, eles são um casal muito católico...não creio que o Pedro se interesse por outras.
Já a Mafalda andava grávida da terceira cria, e o "pai", comendo a vizinha do sétimo com os olhos, lhe perguntava se vivia sozinha, que nunca a via acompanhada. Maria João respondeu que vivia com um piloto da TAP, cujas viagens eram quase sempre de longo curso.
- Coitada, então está muitas vezes sozinha....Vou dizer à Mafalda para a convidar um dia destes, para jantar, assim terá companhia e será menos uma noite em que ficará só. Ela dizendo que sim, com sorriso trocista.
Os segredos que um elevador, antigo como eu, não guarda....
Os do segundo, já com a vida melhorada, por terem recebido a herança, por morte do pai de um deles, fora bem-vinda e ela já muito bem-vestida se mirava no espelho que lhe devolvia a imagem de uma mulher sedutora e de armas, sempre acompanhada pelo marido que não tinha olhos para mais ninguém. Os filhos já crescidos e bem comportados, não todos, que um havia que sempre andava meio entornado.
A Isabel já andava com o Pedro.
Passado uns meses o "pai" mudou-se do sexto para o sétimo andar; Mafalda com os três filhos, encontrava Maria João no elevador e embora a tratasse como nada tivesse acontecido, bem se via no espelho os olhos toldados por tristeza
Os do terceiro recém-casados, foram os únicos que mudaram de casa ao fim de uns 10 anos.
Quem veio para o seu lugar, foi um casal de gays, muito mal vistos por todos e que todos criticavam e faziam troça, mas que eram pessoas encantadoras cumprimentando todos, apesar de bem saberem o que lhes ia dentro.
Foi a partir desse dia que o movimento em que eu andava, mais se fez sentir, tinham muitos amigos e a casa estava sempre cheia. As críticas cada vez mais mordazes. Até a empregada era ostracizada pelas outras.
Dois anos depois aparece David lado a lado com Mafalda. Um dia entraram os quatro no elevador.
Maria João vinha a discutir com o "pai" e calaram-se quando entraram Mafalda e David, enlaçados.
O "pai" não tirava os olhos da sua ex, pensando como poderia ter deixado escapar tão linda mulher, que nem para ele olhava, com quem sempre se tinha dado tão bem...não tivesse sido aquela paixão pela Maria João que já se evaporara....
Teresa veio a saber da ligação de Isabel com o seu Pedro e foi dentro de mim, que lhe fez frente e a avisou, que se não largasse o Pedro, iria contar tudo ao marido dela. Isabel encaixou, não sem envenenar dizendo que se não fosse com ela, com outra seria.
Assim era o meu dia-a-dia, nunca havia descanso nem monotonia.
assinado: Minucha Raposo de Magalhães http://claras-o-contestatario.blogspot.com/

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

DÉCIMO SEGUNDO ANDAR: gabriela rocha martins


-sonho a preto e branco … com elevadores

existe o sol e o luar
a sombra dos poetas e os seus reflexos ,nos sonhos?
fora ,os riscos da rotina .de viver
é necessário acordar .levantar e começar um novo dia
bocejo
9h00
- come o nosso poema ,mas lava os dentes .como medida de precaução – dizes-me ,à laia de despedida
atiro um beijo ,agarro a carteira ,pego nas chaves do carro e páro frente ao elevador .carrego um botão .a porta abre.se e fecha.se
saio .está calor .o carro não pega
vou a pé ,tropeçando em coisas e pessoas feias
10h30
subo um novo elevador .devagar. 5º andar .bom dia .sento-me à secretária .ligo o computador
sou um autómato .sou um robot .enter!
devoro palavras e risos durante o dia
18h30
desço no elevador .r/c .rua
lembro-me que não trouxe o carro e amaldiçoo as coisas e as pessoas feias
sou um autómato .sou um robot .enter!
quem distingue de mim o outro lado de mim?
3h01
em cima da cama o livro dos nossos poemas .os de hoje e os do futuro
adormeço .onde se projectam as sombras?

sonho a preto e branco
sem legendas ...

... com elevadores

assinado: gabriela rocha martins

quinta-feira, 31 de julho de 2008

DÉCIMO PRIMEIRO ANDAR: MATESO, OPUS 2

O Ascensorista
Joe, negro, sessenta anos, vestidos de verde-garrafa e amarelos polidos perfila-se junto ao elevador. O número um, o da ala central. Inclina-se ligeiramente, puxa a porta, abrindo-a ao mesmo tempo que sorri calorosamente. Murmura num timbre quente e arrastado de sulista:
-Bom dia Mr. Owens. It is a good day, isn’t it?
-Bom dia Joe. It seems so, indeed.
É um espectáculo de elegância o velho Joe. Sempre erecto, engomado, irrepreensível. Na tez cor de chocolate as rugas pregueiam-se horizontalmente na simetria dos seus trejeitos. O vinco das calças acompanha a elegância das longas pernas, que terminam nuns pés calçados de preto brilhante. O boné, onde as dragonas em ouro velho sobressaem, dá-lhe aquele ar chic dos anos quarenta em filme da MGM. A sua destreza no abrir e fechar de porta, bem como a sua natural bonomia e sorriso tornaram-no uma referência, no foyer, deste edifício imenso de trinta andares, mesmo no coração de Manhattan. Os mármores negros que revestem dois terços do imenso átrio, os metais amarelos reluzentes, as plantas verdes, brilhantes e profusas, o vidro que enobrece de luz a parte frontal da entrada, a par de um suave meddley na voz de Frank Sinatra, acrescente-se a frescura, ou amenidade, de acordo com a estação do ano, fazem deste lugar, o eleito de Joe Bellow. Hoje é o seu último dia. O elevador número um, o principal, aquele que ele viu nascer e crescer passará para outras mãos. Tem pena, mas a idade não lhe perdoa. A artrite já lhe tolhe os gestos. O esforço por vezes é doloroso, não o demonstra, mas depois em casa é a sua Mabel que lhe alivia as dores com as pomadas, mais as massagens. Chegou o dia que ele temia. Não deixa transparecer a solidão que já pressente. Ninguém parece saber que é o seu adeus. Entra no ascensor. Mr. Owens e Mr. Sutton vão para o décimo, Mrs Trevor para o décimo segundo, Mr. Parker para o décimo sete, Miss Page para o vigésimo, os outros dois cavalheiros, asiáticos por sinal, não sabe, terá que lhes inquirir. O espaço está completo. Entra, prime os botões. Sorri afável. Depois de devidamente esclarecido aperta o botão no andar, que os desconhecidos lhe solicitaram. Joe suspira. Mais uma subida, mais uma viagem. O carrossel dos seus sonhos em vertical. O número um dera-lhe a possibilidade de viajar na imaginação das subidas e descidas. As suas viagens, embora breves, eram sempre ricas em indução nas figuras que o pululavam. Joe conhecia bem, o pulsar daquele edifício, e muito das vidas dos seus personagens. Havia trinta anos que fazia viagens na vertical. Recorda o ano em que Mrs Trevor teve os seus trigémeos. Ocupava-lhe dois terços do espaço dado a sua expansão física. Por essa altura tivera que fazer mais subidas e descidas. Depois finalmente os três Bês nasceram. Bruce, Brandon e Barbara. Hoje têm vinte e dois anos! Como o tempo passou. Recorda o ainda jovem Mr. Sutton, Steve de nome, quando entrou na firma. Hoje director e sócio. Trinta anos Uma vida, a sua. Ali, no “Rox Building” viu as estações sucederam-se ao ritmo das suas viagens. Ora mais movimentadas ora mais lentas. O décimo andar era sem dúvida, a zona por excelência de paragem. Muitas vezes subiu até lá apenas para aspirar o cheiro da elegância bem como dos passos deslizantes daquele pequeno mundo: Owens, Sutton & Partners Consultores. O número um sempre se portara á altura dos seus utentes. Elegante, discreto e oleado. Não fizera birras, deslizara ora cima ora baixo ao som das necessidades pontuais das suas personagens. O velho Joe tinha orgulho dele, da sua subtileza, da elegância, da fiabilidade, da generosidade e do mundo que lhe dera no seu abrir e fechar de portas. Ele, Joe, filho do Mississípi, de gentes pobres e numerosas, imigrara para a cidade, quando na década de vinte a fome apertara de tal forma, que a sarabanda fora total. Ele e os irmãos tinham vindo para a Grande Maçã. Os anos encontraram-no em trabalhos de ocasião. E fora de degrau em degrau que chegara até ao Rox Building. Porteiro. Uma posição. Aprendera muito. Não fora só escolaridade, fora mundo. E isso não se frequenta, adquire-se. Sabia avaliar as pessoas. Aprendera a ser humilde sem ser subserviente. A gente, deste meio, detesta o servilismo sistémico, desprezam-no, podem sorrir ao inclinar constante, ao assentir repetido, mas no virar de costas existe aquele sentimento de quase desprezo ou então de sentido superior. Joe sabia, que entre os poderosos não se pode ser fraco, porque motiva o desprezo, não se deve ser altivo, porque irrita a pele e os sentidos de quem está ao lado. Aprendeu, pressentiu e evitou o excesso de aquiescência, ficando-se sempre pelo seu incontornável sorriso, um sofisma por decifrar. Manteve a sua postura erecta como se fora, o fio-de-prumo, porém sobe sempre revesti-lo de uma afectuosidade envolvente. Todos apreciavam Joe Bellow. Havia uma familiaridade dos anos, uma espécie de corrente de entendimento. Os pequenos favores que lhes pediam eram satisfeitos com sabedoria e contenção. Nem mais nem menos. O ponto exacto de viragem entre o pedir, fazer e agradecer. Um tratado de bem viver, era assim que se podia ser definido Joe Bellow, o ascensorista. Uma época que cessa hoje. A idade encheu-se dos anos, as memórias saturaram o presente, os ritmos tornaram-se contínuos, os espaços estreitaram-se e os costumes tomaram aspecto de aguarelas. Um outro século que surge vibrante na dobra da mudança incógnita. O que era já não é, o que for, poderá, talvez vir a ser. Visualiza, em seu lugar, um porto-riquenho de cabelo oleado e de estatura mais baixa, menos contido, usando um tom familiar e nada circunspecto, pelo contrário, quase de igual para igual, que irá abrir a porta e carregar nos botões. Haverá um franzir de sobrolho, um pigarrear, um ah, hum e depois… depois… tudo subirá e descerá no rolar afinado dos cabos mais das alavancas. Tal como a vida.
Joe sai. Não olha para trás. Já recorda. O ontem e o hoje já foram. Amanhã recomeça a subida do outro tempo que lhe resta.

Assinado por: Mateso

quarta-feira, 30 de julho de 2008

DÉCIMO ANDAR: MINUCHA R M, OPUS 2


CONVERSAS DE VIZINHOS
O prédio ia ser deitado abaixo e ela ia fazer pela última vez aquela viagem de elevador que a levaria até ao 5º andar, onde se ia despedir das paredes que a tinham visto crescer.
Chamou o elevador, e enquanto chegava viu-se com dez anos a subi-lo pela primeira vez. Prédio de grandes familias, menos o 4º onde se tinha acabado de nascer o primeiro filho do casal, o Tiago bébé lindo, cuja beleza sempre o acompanhou.
Como era ainda lento, sem nunca mais o terem modernizado. Os vizinhos eram amigos dos pais, a quem tratava por tios.
Finalmente entra, lembrando-se como era desengraçada em plena adolescência.
Tinha-se transformado por volta dos dezoito anos, corpo bem feito, as minissaias mostrando as pernas perfeitas, foi quando namorou o João, filho mais velho dos do primeiro andar.
O Tiago com oito lindos anos, já para ela olhava, e sempre que o via, ela ternurenta dizia
- Olá Tiago, és o vizinho mais lindo deste prédio
Os do segundo andar, sempre snobs, mal davam os bons dias, os filhos, porque os pais eram sempre simpáticos.
Desde os dezassete anos que quando junta fazia a viagem com o "Tio"do terceiro, ele lhe beliscava o rabo, e lhe dizia – Maria Antónia estás-te a transformar, qualquer dia pões a cabeça doida a qualquer homem – ela ria, para disfarçar o mal estar, que o amigo do pai, homem bem bonito, lhe provocava. Ao dezanove, agarrou-a pela cintura e roubou-lhe un beijo, enquanto ela lhe tentava fugir naquele apertado espaço, rindo-se ele da sua atrapalhação. Nunca mais com ele subiu
- Olá Tiago, és o vizinho mais lindo deste prédio...ele com dez anos corou e pôs os olhos no chão. Ela admirada, com uma mão levantou-lhe acabeça, olhou-o nos olhos e percebeu a paixão, então com infinita ternura deu-lhe um beijo na face, que o corou mais ainda.
Ainda vai a passar o terceiro andar e já só de se lembrar fica mal disposta, com a investida do pai do Tiago, que num acesso de loucura, tinha ela vinte e dois anos, mal fecharam as portas no rés-do-chão, a encosta à parede desapertando-lhe a blusa, enquanto ela se contorce e ele arquejante lhe diz ao ouvido, que assim ainda mais a deseja, mas que tem de lhe dar uma lição para não andar a provocá-lo com aquelas saias, enquanto a beija no peito já despido e as suas mãos percorrem o seu corpo. Já o elevador está parado no quarto andar e ele só larga a sua presa, quando ouve a voz da mulher à porta a perguntar-lhe o que se passa. Fica caída no chão, lágrimas a correrem-lhe pela cara, enquanto o ouve, respondendo à mulher, que estava a dar uma lição de moral à Maria Antónia. O pavor que a partir daquela altura tinha de no elevador entrar, fê-la muitas vezes subir a escada até ao quinto andar.
- Olá Tiago, continuas o mais lindo vizinho deste prédio...olá Maria Antónia....ele já com dezassete anos, ela casada, o mesmo olhar apaixonado...então ela com ternura, roça-lhe a boca num beijo leve
Já está no quinto andar e não sai logo, porque ainda se lembra da última vez que viu o Tiago já homem, mais bonito do que se lembrava, ela com quartenta cinco, sem se reconhecerem
Maria Antónia? Pergunta e ela com alegria – Tiago! Continuas lindo. No seu olhar já não existe paixão...e ela diz-lhe na brincadeira – Vês o que fazem os anos? E ele numa ternura, roça-lhe a boca num beijo leve, enquanto lhe diz – A Maria Antónia será sempre a mais linda e terna mulher que me marcou.

Assina: Minucha Raposo de Magalhães


terça-feira, 29 de julho de 2008

NONO ANDAR: EUFRÁZIO FILIPE



O ELEVADOR

- Por aqui?

- Sim senhora ministra.

- Não brinque. Sabe que fui remodelada.

O hotel não tinha muitas estrelas, mas permitia alojamentos para cães e estava como eu gosto, debruçado sobre o oceano, encavalitado numa rocha colossal. Um verdadeiro atentado.

- Aqui não tenho problemas por uns dias.

- Eu já conhecia este espaço. Como preciso do mar desgrenhado, de preferência com temporal e muitos relâmpagos, por cá estive um inverno.

- Interessante, eu gosto deste sítio quando o mar parece sopa.

- O Dique o que mais aprecia neste hotel é o elevador.

- Curioso, a Lassie também.

O hotel - talvez por se localizar num espaço ermo e caro, obedecia a todas as regras de segurança.
Na verdade até o magnífico elevador tinha um vigilante em cada apeadeiro. No r/c situavam-se os alojamentos para os animais. Os andares estavam reservados para os donos. Encrostadas na rocha espelhavam as piscinas de água salgada que o Dique nunca utilizou por ser um Serra da Estrela.

- Admito que a senhora ministra adore animais.

- Por favor, trate-me por tu.

- Com certeza.

- Após a minha remodelação, vivo com a Lassie. É a minha confidente.

De facto a cadela, um belo exemplar, exibia dois explícitos olhos meigos, pêlo farto aloirado, uma madeixa branca no focinho, ancas bem desenhadas, tetinas hirtas, cauda proeminente enrolada.

Uma senhora.

O Dique não dizia nada, mas só um cego não via o carinho com que a coçava nas orelhas e lhe lambia os olhos.

- Dique - deixa a Lassie.

- Por favor não reprima os animais.

Estávamos no bar da piscina. O calor apertava e o mar parecia sopa. Chamei o empregado.

- Para mim um Kutty Sark, para o Dique uma água das pedras.

- Para mim um rosé gelado, para a Lassie uma Coca-Cola.

O hotel - por estranho que pareça, facultava na mudança de turno dos vigilantes, uma oportunidade para os cães subirem e descerem no elevador. O Dique desde a primeira vez, adorava estas viagens e foi a pensar nele que sugeri para o turno da meia-noite uma viagem com o Dique e a Lassie.

- Por mim tudo bem.

Assim aconteceu. A senhora, no último andar, carregava no botão e o elevador subia. Eu no r/c carregava no botão e o elevador descia.

Esgotado o tempo e a paciência, regressámos aos aposentos. Os cães - cada um para os seus. Eu -

convidado, fiquei no último andar.

Uma suite espectacular, ampla, arejada, bem decorada, com tudo o que não fazia falta, excepto o espelho que forrava o tecto, mesmo por cima da cama. Coisa linda.

- Considere que apesar de tudo ainda sou uma figura pública.

- Conhece o "jardineiro do convento", De Giovanni Boccaccio?

- Sim - era um surdo-mudo, mas não de nascença.

Ali ficámos a ouvir a ondulação do mar, até adormecermos no espelho.

No dia seguinte, regressado à preia-mar, ainda a madrugar na lua-cheia, trazia um sinal de outras marés, de outros ventos, quando alarmada mas feliz, a correr para mim, a senhora ministra.

- Tenho uma grande novidade.

- O governo demitiu-se?

- Não, a Lassie está grávida.

- Não me diga.

- Eu conheço a minha cadela.

- Foi no elevador.


Eufrázio Filipe
29 de Julho de 2008

sábado, 26 de julho de 2008

OITAVO ANDAR: MINUCHA R M

DOIS IRMÃOS
Para eles o elevador antigo, era sempre uma aventura.
Por ele fugiam, porta de lagarta aberta, antes de chegarem ao seu interior, tinham de abrir as duas portas de vidro, elegantemente trabalhadas em gravação a fosco, fugiam de quem não lhes queria bem.
Por ele entravam, no que eles chamavam calabouço, embora nunca tivessem estado presos, presos ficavam os seus sonhos desfeitos mal entrassem em casa.
Saiam no elevador, contentes assobiando, sabendo já que haveria represálias, mas mesmo assim a aventura chamava por eles, porta fora chegavam ao exterior.
Entravam nele, cabeças baixas, pensando já no que lhes iria acontecer, pensativos perguntando-se um ao outro se valeria apena subir.
Tão novos, tantos sonhos já desfeitos e desciam, subiam, subiam e desciam, assim passavam a vida.
Lembrava-se disto tudo, enquanto o elevador ia subindo, aos anos que não fazia esta viagem de elevador, o irmão já morto... espreitando o primeiro andar que continuava igual, entrando por ele adentro a sensação que nunca tinham percebido o movimento do elevador, os seus arranques as suas hesitações, que se podiam comparar à sua vida.
Segundo andar, já bem modificado, visto ser de escritórios, porta da rua escancarada para todos poderem entrar.
Quando desciam no elevador, era como descessem ao melhor que deles tinham, a alegria, os sonhos, a magia da vida, que bastava uma gargalhada para toda ser diferente. Quando subiam nele, entravam no pior que neles havia, a violência que os marcara para o resto da vida, o desamor que se refletiria, também, na vida do dia-a-dia, as raivas e os medos
Já ia no terceiro andar, tremeu só de pensar que estava a chegar ao pior que tinha havido nele, ao pior que havia na sua vida, o irmão já morto....
Resolveu, no pouco tempo de permeio entre o terceiro e o quarto andar, que desta não seria apanhado desprevenido, não se deixaria ir abaixo, far-lhe-ia frente, se queria mudar.
Quarto andar, o fatídico, ainda hesitou dentro, mas de rompante abriu de par em par as duas portas de vidro, elegantemente trabalhadas em gravação a fosco, abriu ainda com mais energia a porta de lagarta e quando já tinha saído e se preparava para as portas fechar, ouviu um risinho de desprezo que dizia:
- então ainda estás vivo? Não te suicidaste como o teu irmão? Sempre disse que eras um cobarde! Como te atreves ainda a subir nesse elevador
e num repente, esqueceu-se de todas as boas intenções, pôs um pé na rede que separava o corrimão da escada, do fosso e de um salto deixou-se cair, como tinha feito o irmão ainda adolescente.
Assina: Minucha Raposo de Magalhães
http://claras-o-contestatario.blogspot.com/

sexta-feira, 25 de julho de 2008

SÉTIMO ANDAR: CRISTINA SOARES

O seu nome é Vairaumati

Ela entra no elevador. Tem pressa. Fecha o gradeamento com um gesto seco. Carrega no sétimo. Ele entra no prédio. Já não vai a tempo. Dá um passo atrás. Lança-se para as escadas. Ela encosta-se ao espelho. Suspira e os olhos rolam para o desenho feito de vidros do tecto. Um rosto de contornos incompletos pelo passar do tempo. Em volta uma ramagem de flores. Parecem flores de hibisco. Semicerra os olhos. E o sol de quando tinha quinze anos escorre-lhe na pele. Uma mão que lhe afaga os cabelos. Coloca-lhe uma flor. Vermelha. Pareces um quadro de Gauguin. Sente o sorriso rasgar-se nos olhos. Ele galga os degraus de dois em dois. O elevador passa por ele. Ruído surdo dos cabos. As escadas que sobem contornando a caixa do elevador. O som dos passos dele é abafado pelo ruído surdo dos cabos. Primeiro andar. Há uma mulher que varre o patamar. Na penumbra. Sem rosto. Para só para o olhar. Ele não a vê. A mulher cumprimentou-o. Ele não. Segundo andar. Ela volta-se. Olha-se no espelho. Os olhos grandes e negros rasgam a sua imagem. Humedece os lábios. O sabor amargo do café. O rosto esquecido por entre as mãos. O livro aberto na mesa. A brisa da manhã agita-lhe as páginas docemente. Há um homem na mesa do lado. Que a observa. Esse homem tem um pedaço de grafite na mão. Um pequeno caderno na mesa. Ela sente o homem por cima do ombro. Não o vê. A manhã corre mais rápida que o tempo. As pessoas passam devagar. As mãos dele correm rápidas e secas sobre o papel. Terceiro andar. A luz do candeeiro é ténue. As portas são vultos ténues de contorno curvo. O elevador passa por ele de novo. A luz do elevador revela o gradeamento gracioso do corrimão. Por um instante. Ele acelera o passo. Quarto andar. Ela aperta o pequeno livro contra o peito. Suspira. Sente o abraço. A voz que lhe murmura encostada à flor que tem no cabelo. Cheiras como um quadro de Gauguin. O cheiro da pele dele que lhe humedece a boca. Suspira. Quinto andar. Ele respira fundo, com mão crispada no corrimão. O som dos cabos abafa-lhe o respirar pesado. Há um homem que sai. Fecha a porta. Quatro voltas da chave. Ele retoma a subida. O homem que saiu carrega no botão para chamar o elevador. Solta um suspiro irritado. Tem de esperar que desça. Dois degraus de cada vez. Sexto andar. Ela atira o pescoço para trás. Ainda lhe sente os olhos beijando-lhe os contornos. O som ríspido da grafite no papel áspero. Traços e gestos nervosos. O sabor amargo do café. Ela levanta-se impaciente. Ele não vem. Ele esqueceu-se mais uma vez. Corre para casa. O som de passos por cima do ombro. O desapontamento é quente e húmido nos seus olhos grandes. Corre para casa. Ele não veio. O elevador pára. Ela abre a porta de olhos cravados no chão. Pára. Procura as chaves na mala. A luz da clarabóia é quente. Atrás de si, passos apressados. Espere! Ela gira sobre si. O homem do café sorri ofegante. Espere. A mão que segura a chave suspensa no ar. Tenho que de lhe dizer uma coisa. Estende-lhe uma folha pequena. O seu rosto a grafite. Uma flor de hibisco no cabelo. Ela suspende a respiração. A luz da clarabóia inunda os olhos dele. Tinha que lhe dizer isto. Os olhos dele diluem-se nos dela. Tinha que lhe dizer que parece mesmo um quadro de Gauguin.

Cristina Soares
24 de Julho de 2008

quinta-feira, 24 de julho de 2008

SEXTO ANDAR: ÂNGELA MARQUES

Suspensa no Elevador

(Escuro.

Abre-se a luz sobre o palco, desenhando um quadrado de 2x2m.
No chão, está deitada uma mulher que aparenta uns 50 anos, em cima de um casaco e com uma saca de ombro ao seu lado.
Acorda lentamente, espreguiça-se, boceja.)

M - Ahhhhh.... Mais um dia. (Abre o saco e tira uma agenda que abre na página marcada com uma fita e uma caneta.) Ora, 23 de Julho de 2008... Muito bem. Uma eternidade. Bom, toca a levantar.

(Volta a guardar a agenda e a caneta e tira um saco de toilette. Levanta-se, vira-se de costas para o público, como se olhasse para um espelho.) Credo! Esta cara assusta o diabo! As olheiras estão cada vez piores... Farei o meu melhor para disfarçar este mau aspecto. (Começa a espalhar um creme pela cara, depois a base. Pinta os olhos com um lápis preto, põe o rimmel e pinta cuidadosamente os lábios. A sua postura vai sendo cada vez mais solta, sensual. Afaga o seu rosto no espelho, os lábios.)

Hummmm, estou bem melhor assim.
(Sorri.)
Gosto de mim.
(Vira-se para o público, de novo, enquanto guarda tudo na carteira.)
Vocês não gostam? Não, não é de mim que eu falo. Eu pergunto se vocês não gostam de vocês. Cada um de si, é o que quero dizer. Isso é fundamental na vida. Eu, por exemplo, se não gostasse de mim, não me tinha aguentado aqui fechada no elevador até hoje. Estou em Paris, no Quartier Latin, onde vivo há 3 anos com a minha companheira. Somos um casal feliz. Ela é jornalista e escreve. Eu sou actriz. Mas sou intermitente, trabalho a recibos verdes e nada é certo. Faço de tudo. Tanto a Ofélia, como a Cinderela nas festas dos meninos. Na pior das hipóteses ando por aí a fazer de clown à saída do metro e a encher balões junto ao Luxembourg.

(Abre de novo o saco, tira um grande nariz vermelho de palhaço e três bolas de circo. Começa a brincar com elas, atirando-as ao ar.)
Estão a rir-se? Não sei porquê!! Tenho que ocupar o meu tempo e estar sempre em forma, porque quando sair daqui a vida continua. Preciso de ganhar o meu dinheiro. Esse é o segredo da nossa relação perfeita. Eu não quero depender dela em nada. Somos de meios completamente diferentes, amamo-nos e conseguimos partilhar as nossas vidas, porque cada uma é independente da outra. Ora, para mim, pagar metade da renda da casa, da luz, água, compras é muito mais difícil. Tenho que trabalhar o dobro. E a saúde já não é o que era. Mas, verdade seja dita, quando fico doente e não posso ir trabalhar ela não me falta com nada.

(Guarda as bolas e o nariz e tira um MP3 que coloca nos ouvidos para ouvir música. Vai fazendo exercícios de aquecimento e movimenta-se com o corpo, quase dançando.)
É assim o amor. Eu não consigo retribuir, mas felizmente ela nunca adoece. É uma mulher cheia de genica, bonita, elegante. Viaja bastante e convida-me, mas eu nunca a acompanho. Não poderia suportar os custos. Já me divirto imenso quando vamos a casa dos pais dela, na Provença. Recebem-me e aceitam-me muito bem. (Com um sorriso de felicidade) Sabem que a filha é feliz comigo e isso é tudo para os pais...

(As suas feições mudam subitamente. A cara exprime uma dor profunda e os olhos brilham, cobertos de lágrimas que resistem em cair)
Eu não sei quem é o meu pai. A minha mãe era puta, e pôs-me fora de casa aos 10 anos... nunca tive coragem para ir procurá-la. Agora é tarde. E Inês é morta, como se diz. Mas isso é em Portugal.

"Ó meu túmulo e meu tálamo nupcial, ó lar cavado na rocha que me guardarás prisioneira para sempre! Para aí avanço ao encontro dos meus, de que Perséfone recebeu já o maior número entre os mortos; dentre eles restava eu, em muito a mais perversa; a caminho já vou, antes que se tivesse cumprido o destino da minha vida. Espero...."
(Durante a fala de Antígona, a luz vai baixando aos poucos, até apagar em "Espero". Ouve-se a voz off de uma mulher)
Definitivamente este texto está uma merda! A personagem ficou ali encravada no elevador e não sei que lhe fazer. Lixo com isto.
(Ouve-se o barulho de folhas de papel a serem rasgadas.)

FIM

ângela marques
23 de Julho de 2008

terça-feira, 22 de julho de 2008

QUINTO ANDAR: MATESO

Descendo o Tempo.
Entra, puxa a porta de ferro forjado, de folhas hirtas, que ao dobrar se animam em laços de toucado. Encosta-se à parede. Estica o braço, e com o indicador em riste onde a unha vermelha sorri, prime o botão. Rés-do-chão. Um ligeiro solavanco faz deslizar os cabos já cansados de sobe e desce. Ela, figura solitária olha-se no espelho que engalana o cubículo forrado a vermelho de veludo já esgaçado. Devolve com trejeito, o olhar. A boca, carnuda e húmida de polpa carmim, deslaça um sorriso que restitui à imagem. Os caracóis sedosos escapulem-se do petit-chapeau que lhe cobre o lado direito. A minúscula rede enevoa-lhe as pupilas, se percebem aquosas, cor de mar. Figura gentil, coquette.Gira sobre si num trejeito de momice. Depois recosta-se ao veludo da parede. Lento num estrebuchar de idade, o elevador desce no tempo. O chiar monótono alinha-se com as memórias. O tempo vivido aqui e ali. O zurzir dos gritos interiores, prontamente alinhavados em súplicas ou sorrisos de promessas. Foi hoje, lá quarto andar onde vive, mora, se melhor pensar. Lá, onde o seu quotidiano vazio se prende às paredes profusas de cores e penumbras. É no terceiro andar da sua vida, que abre o álbum dos retratos por definir. É por aí, que puxa a porta adereçada e toma a descida. O hoje, já ficou para cima, na caixa escura, onde circula. Agora, começa o ontem, quase fresco de imagens e parábolas de quotidiano. Gerardo, o seu amante, o seu homem de sempre. Viril, canalha e lascivo. A sua sorte, o seu vício e o seu prazer. Ora uma eira de sentidos, ora uma campa de camarço. Não fazia sentido viver sem ele. Mesmo no desventrar do seu corpo, no repúdio do sentir, mesmo quando as entranhas se contraíam em vómitos e o sangue borbulhava de rancor, Gerardo era a seiva do seu Ser. Todo ele. A sua figura morena esquiva, lúbrica, brilhante e autoritária. O seu olhar cruel, profundo, desdenhoso, devasso e amante. Tudo nele tresandava a vida. Amava-o humilhando-se. A sua memória sabia-o, mas a sua carne era um animal esfomeado, necessitava da saciedade tal como o espírito se alimentava da raiva subcutânea fermentada nos poros, e que eclodia naquela dualidade de amor-ódio, trave mestra do seu quotidiano. Os dias do seu terceiro andar. O elevador desce inexorável. Ouvem-se esbatidos, saídos de uma grafonola, a voz gasta de Piaff e”La vie en Rose”. Um calafrio perpassa-a. Sacode-se como que extirpasse algo impalpável todavia objectivo, algo pegajoso e indesejado, a memória da verdade. O elevador desce. Segundo andar. O Pai. O corpo fica convulso. As unhas vermelhas cravam-se na carne. A pele láctea tinge-se de violeta. O seu Estigma. Revê o olhar negro, encovado, roxo, bruto. Aquele hálito de surro que embebedava o próprio ar. Aquelas mãos grandes, suadas que lhe procuravam o corpo nas noites geladas. Era ele, o homem que lhe aquecia a cama, lhe violava o ventre e roubava a alma. Era aquele monte de desejo putrefacto que se servia dela. E a mandava calar quando gritava. Era o caniço que o dominava e nela se satisfazia. Na filha. E fugiu, fugiu da podridão, fugiu da servidão, do ódio, da convulsão. Veio para o mundo. Que mais poderia fazer, se outra coisa, não sabia. A sua sina fora aberta no dia em que o pai dela se servira. Menina ainda. Depois fora o hábito, depois a perícia e agora a arte. Sim, arte, em tudo há arte. As imagens esbatem-se lentas mas fortes. Abalam. O negro, o escuro e o vermelho. Tingem a alma. O elevador continua a sua descida. Está a uma nesga do primeiro. A Mãe? Não se lembra. Fugiu. Sabe que fugiu com outro. As feições? Dizem que ela, Lisete, é-lhe parecida. Talvez.
Primeiro andar. O elevador pára, sacudindo-se como se os cabos mais não aguentassem. No baloiçar, a memória sorri. Um bibe de riscado, uma côdea na mão, umas tranças meias-feitas. De mão estendida procura tocá-la suavemente. A garota volta-se, acena e sorri. Um olhar doce, umas covinhas malandras. Ágil desaparece. Vai numa corrida desengonçada. A escola é mais além. Vê-a sentada, chupando no polegar enquanto pensa. Depois lesta, dedo no ar. A visão desvanece-se. Outro dia, um grupo de ganapos correm pelo campo fora. Vão às papoilas. É Maio. A brisa percorre o ar, e os risos dançam com ele. São cinco, seis, não sete garotos, todos povoando o verde do campo. Mãos e risos ao vento. Um dia feliz. A memória desse dia torna-a rosada. Endireita o corpo, olha-se ao espelho, ajeita a toilette, belisca as faces, compõe a saia, endireita o corpete, mira a ponta da botina e espera pelo rés-do-chão. O pátio, de mármore escuro, está do outro lado. A tarde transmuta-se na noite. Há penumbra amarga. Abre a porta que chia sob o peso das lembranças. As folhas parecem ter murchado ligeiramente. Carecem de uma lufada de memórias frescas e leves. Coloca a malinha no antebraço direito e calça as luvas. Pisa, serena, o patamar. A grande porta da rua está mesmo à sua frente, é só descer os degraus no tempo e calcar as quelhas do desatino.
O elevador fecha as luzes e dá as boas-noites.
Assina: Mateso

QUARTO ANDAR: BRANCO E AZUL

O elevador dá-lhe sempre que pensar. Sempre. Só que hoje, particularmente, dá-lhe mais do que costume. Tinha entrado. Chateada. O percurso de 15 andares incomodava-a quando tinha que fazer a maldita conversa de circunstância. O trânsito, a chuva, o sol, o metro, os autocarros, as férias dos miúdos. Lembra-se sempre, ali, do tempo em que vivia em Lisboa, num prédio de três andares. Sem elevador. É que Lisboa não tem arranha-céus mas tem trânsito. E conversa de circunstância. Naquela terça-feira, felizmente, não entrou ninguém. Que alívio, pensou. Terceiro, quarto, quinto, sexto andar. No sétimo, pim! Pim? Pronto, lá vem alguém.... Bom dia, ai que chove, ui que trânsito, etc. Qual não é o espanto quando a vê entrar. Não queria, não podia acreditar. Era ela. A sua vizinha do lado, do tal prédio de Lisboa, ali no elevador do enorme edifício de escritórios em Nova Iorque. Fizeram uma festa, conversaram e naquele dia, naquele elevador, aquelas vizinhas não fizeram conversa de circunstância. Coisas de elevadores...

sábado, 19 de julho de 2008

TERCEIRO ANDAR: HELDER MAGALHÃES

MEMÓRIAS DE UM ELEVADOR
Em luz de lua cheia, sob noite abafada e calorenta, estava em aposentos usuais aquele elevador, solitário no seu mundo, fechado, vazio, vertical, iluminado por uma força maior, vinda de céus imaculados, botões apetecíveis no seu interior, que pedem incessantemente para lhes pressionarmos com suavidade angelical.
Um, dois, três… e vai subindo e subindo.
Quatro, cinco, seis…
Pára.
De seu interior frio e fracamente acolhedor, luz amarela, vem passageiro de hábito.
Logo, alguém necessita de auxílio e elevador que é elevador não tem mais que obedecer a outra paragem.
Traz em seu regaço ricos e pobres. Novos e velhos. Pais e filhos. E todos saem indiferentes e isentos de compaixão para com o seu trabalho árduo e talento inato para a monotonia.
Que ao menos lhe dessem ponta de conversa, que lhe perguntassem “como vai a vida, Sr. Elevador?”, que lhe peçam a mísera permissão para entrar. Mas ninguém o faz e dele todos abusam, várias vezes ao dia, para cima e para baixo, para baixo e para cima, sob cabos traccionados que puxam até ao limite, que se rompem em si, para satisfazerem as necessidades dos abusadores.
E assim continua a vida de um elevador.
Só.
Silenciado.
Em perpétuo movimento vertical.

Enfermeira recém licenciada, menina de bem que ali havia morado, vem visitar quem lhe deu à luz. Acabada de sair do emprego, ainda com bata branca a dar bem acima do joelho, pernas oferecidas, o sapato preto de salto alto em contraste com cabelo louro preso num apanhado em cabeça de pele clara e olhos azuis.
Espera e entra.
Ainda não estava a meio da viagem ascensorial quando o transporte se deteve para entrada de novos passageiros. A conversa parecia ir já longa entre o casal do 3º Direito que agora ia a entrar. Deparam-se com tamanha brutalidade, a vista a ferir, na enfermeira ali encostada ao fundo, o espelho a reflectir as linhas curvas da sua anca.
“Vai descer?” pergunta o casal quase em uníssono.
“Não, não. Vou subir.” disse-lhes ela.
A mulher aprontava-se em falar, mas o marido precipitou-se, falando mais rápido que a própria esposa, dirigindo palavra a ser tão belo, um anjo talvez, enfermeira de profissão.
“Não tem mal. Nós aproveitamos a boleia até lá acima e depois descemos.”
“Como queira.” respondeu-lhe a enfermeira, deixando-o embriagado a éter pelas palavras dirigidas.
A viagem foi em silêncio. Sob olhares devoradores, de desejo e traição. Outros olhavam de inveja, extasiados de perfeição contida num único ser.
O “plim” emitido anunciava a paragem no andar superior. O toque indesejado por uns e ansiado por outros, gastos de tanto silêncio e timidez que o elevador oferecia. Ninguém se pronunciava durante uma e qualquer viagem. Ficavam ali parados, a olhar, à espera. Pobre elevador, de vida estreita e embutida na verticalidade de um edifício, sem nome, sem jeito, dado a medos e anseios, provido da mudez dos passageiros que ali ficavam à espera de mais alguma coisa além da ascensão.
Sai a enfermeira no andar desejado, olhares postos à sua passagem. Fica no elevador a essência da sua presença, um rasto fino de elegância dum bom perfume e duma suave mesclagem com éter, suficiente para o marido, disfarçadamente, se deixar seduzir.
A porta fecha-se, a ilusão desvanece e a viagem é retomada, em silêncio.
Mais um “plim” que anunciava o final da viagem.
Abre-se a porta. Mais clientes esperavam ansiosamente no piso térreo. Uma criança entre adultos, um ser tão pequeno que fitava a robustez do elevador de baixo para cima. E de baixo para cima este parecia mais severo, mais austero, mais alto, mais vertical, mais silencioso e mais solitário. Intimidava a pequena criança, de pobre inocência, agarrada ao urso de pelúcia e assustava-a no seu intento. Que medos e anseios viriam a consumir tão angélica e frágil criatura à entrada do assustador paralelepípedo ascendente.
“Boa noite.” disse o casal à saída.
“Olá, boa noite.” respondeu-lhes um dos vizinhos do 4º Direito. “Como têm passado?”.
“Estamos muito bem, obrigada.” Disse a esposa. “E como estás tu, meu pequenote?” continuou a esposa dirigindo-se ao filho dos vizinhos.
A criança não lhe respondeu fechando-se ainda mais na sua timidez. Um elevador repulsivo e uma vizinha arrogante a ajudar nos pesadelos de uma pobre criatura que há pouco veio ao mundo.
“Hoje está com vergonha.” desculpavam-se os pais.
A pouca timidez entre os casais já era de longa data. Ficaram ali, em átrio vazio, de ecos e assombros, embrenhados em conversas de dia-a-dia. Fitavam momentaneamente o elevador, personificação do silêncio, ali parado, à espera de ser usado uma vez mais. Aproveitou a distracção dos adultos e a curiosidade da criança para se dar a entender, para que o esforço lhe fosse reconhecido, para que lhe dessem mais valor, sem solidões, silêncios ou monotonias. Queria a compreensão da sua amargura, da sua simplicidade, da linearidade da sua alma e da sua constituição, a descer e a subir a proveito de outros.
E continuou no seu silêncio, à escuta das conversas que não ouvia no seu interior, conversas tão desejadas, tão ansiadas que demais lhe trariam a vivacidade da alma.
Uma palavra daqui, uma frase de acolá.
Assim escutava, no seu silêncio.
O menino continuava parado. Admirado da imponência, consumido de medos à sua aparição rectangular. Fora a primeira vez que tivera a oportunidade de o observar convenientemente. Do menino para o elevador. Do elevador para o menino.
Distraídos do quotidiano discutido no átrio, fixaram-se mutuamente, o elevador e a criança. Agarrou com mais força no urso de pelúcia, aconchegando-o no seu peito, para que este não tivesse medo do que se lhes deparava.
O elevador ali se manteve. Fixo. Iluminado. À espera de alguém. Ainda à escuta, mas distraído na presença de tão frágil e amedrontada criatura.
O tempo passou.
Continuaram os dois a olharem-se mutuamente, compreendendo-se, de um para o outro, de fronte a fronte. E assim estabeleceram um diálogo no mergulho profundo do silêncio. Sem boca nem ouvidos. Falaram entre si pela alma. Estabeleceram um diálogo de compreensões, ditaram os medos, os gostos, as amarguras, os anseios, as paixões. Ficaram ali indefinidamente, devolvendo olhares que levavam e traziam palavras e sons que mais ninguém ouvia. Só os dois, naquela noite, ouviram-se para sempre.
As azáfamas do dia-a-dia tiveram as horas contadas e o menino preparava-se agora, extasiado de alegria interior, para ser coberto e recolhido no interior de um alter-ego. Um ser que a si se assemelhava, no silêncio, na timidez, na dor e no sofrimento.
A viagem assim continuou. Muda, como sempre fora. Só um “plim” foi audível, já no final, quando a porta se abria, a dar entrada a novos ares, a novos espaços mais amplos, mais acolhedores, menos silenciosos.
A criança saiu.
Levado pela mão, afastado de quem o compreendia verdadeiramente, a olhar para trás, no vislumbre final do interior daquele elevador. A porta a fechar, o diálogo a cessar paralelamente.
Como uma despedida sentida, em adeus intemporal, afastaram-se os dois por forças maiores.
E o silêncio voltou.
Noite após noite.
A subir e a descer. Sempre à espera de diálogos. De outros diálogos. De novos encontros. De novas compreensões.
À espera de ascensões que o iluminassem.
À espera.
Sempre à espera.

E assim continuou a vida de um elevador.
Vazio.
Calado.
Em perpétuo movimento vertical.
Assina: Helder Magalhães